Menopausa precoce e risco cardiovascular
20 de fevereiro de 2022

Uso de vastatinas na gestação: atualização

As vastatinas são drogas contraindicadas durante a gestação, classificadas como risco x (malformação congênita) por muitos anos. Ano passado o FDA fez uma sinalização de liberação para uso em situações especiais como pacientes de alto risco cardiovascular (principalmente para AVC), com DAC prévia e portadoras de dislipidemia familiar.

Agora, na virada do ano de 2021 para 2022 foi publicado um estudo retrospectivo de Taiwan (JAMA Network Open. 2021;4(12):e2141321. doi:10.1001/jamanetworkopen.2021.41321) que trouxe novos dados sobre o assunto. Devo dizer que há pouco literatura a respeito, as vastatinas foram condenadas por estudos animais com ratos, relatos de caso e serie de casos.

Os melhores estudos sobre o tema são um artigo de Bateman at all (Bateman BT, Hernandez-Diaz S, Fischer MA, et al. Statins and congenital malformations: cohort study. BMJ. 2015;350:h1035. doi:10.1136/bmj.h1035) e uma revisão sistemática de 2016 (Karalis DG, Hill AN, Clifton S, Wild RA. The risks of statin use in pregnancy: a systematic review. J Clin Lipidol. 2016;10(5):1081-1090. doi:10.1016/j.jacl.2016.07.002). Ambos os estudos não mostram associação estatística do uso de vastatina com malformação congênita.

Vamos ao estudo.

Foram 469 mulheres que usaram pelo menos 7 dias de vastatina durante a gestação e um controle de 4.690 mulheres (1:10) pareadas por idade e comorbidades, o endpoint primário foi associação do uso de vastatina com malformação congênita e o secundário avaliou associação com prematuridade, fetos pequenos (PIG), sofrimento fetal, baixo peso ao nascer (< 2.500g) e escala de Apgar no 1º e 5º minutos (abaixo de <7). Vamos aos principais pontos: - Foram avaliadas tanto as vastatinas lipofílicas (lovastatina, sinvastatina, fluvastatina, atorvastatina e pitavastatina) quanto hidrofílicas (pravastatina e rosuvastatina); - O grupo de mulheres usando vastatina tinha 41,8% de diabéticas (pré-gestacional) x 0,4% do grupo que não usou vastatina, do mesmo modo para HAS (25,8% vastatina x 1,1% não-vastatina); - O grupo que usou vastatina teve mais risco de desenvolver Pré-eclâmpsia/eclampsia que o grupo que não usou (RR, 2.78 [95% CI, 1.66-4.65]); - Recém-nascidos de mães expostas as vastatinas tiveram mais prematuridade (RR, 1.99 [95%CI, 1.46-2.71) baixo peso (RR, 1.51 [95%CI, 1.05-2.16]) e escala de Apgar <7 no 1º minuto (RR, 1.83 [95%CI, 1.04-3.20]); - Não houve associação entre a exposição as vastatina durante a gestação e a presença de malformação congênita nos récem-nascidos. - A malformação congênita se associou com a presença do diabetes pré-gestacional (RR, 2.29 [95%CI, 1.38-3.80]); - Gestantes que foram expostas a vastatina, sem DM ou HAS, tiveram mais parto prematuro (RR, 1.88 [95%CI, 1.28-2.75]) tanto para hidrofílicas quanto para lipofílicas. As vastatinas lipofílicas foram associadas com mais baixo peso (< 2.500g) e as hidrofílicas com escala de Apgar < no 1º minuto. Vamos a discussão. A associação de malformação congênita por interferência na síntese de colesterol intraútero parece cada vez mais distante, ainda não temos um bom estudo prospectivo com acompanhamento no pós-parto longo para termos a liberação ao uso, mas esse estudo corroborou com recomendação do FDA para uso em gestantes de alto risco. O uso de vastatina já foi estudado para prevenção de pré-eclâmpsia, nesse estudo o grupo das mulheres expostas ao uso tiveram mais PE que quem não usou, mas era um grupo de alto risco com mais diabéticas e hipertensas crônicas, e o estudo não foi desenhado para isso. Chama nossa atenção a associação da exposição intraútero de vastatina e a prematuridade e baixo peso, mesmo em gestantes sem DM ou HAS, sugerindo efeito da droga no crescimento fetal. Mais uma vez carecemos de outros estudos para resolvermos essa hipótese.

Iniciar WhatsApp
Como posso te ajudar?
Olá!
Posso te ajudar?